A caridade não pede teorias

O horizonte secular encontra-se nublado, devastado por teorias desencontradas e desarrazoadas que impedem a evolução do espírito ingênuo e travam a evolução dos que se julgam com maior preparo intelectual. Os teores das doutrinas corrompem as mentes quando essas doutrinas não se assentam solidamente em princípios reais e nobres, os quais só podem ser acessados pela nobreza de caráter daquele que inquire acerca da realidade das coisas sociais e das coisas ocultas. O título de intelectual não tem serventia para a tua alma, mas é bom para a tua alma um intelecto lúcido e potente, tão necessário para a investigação das coisas quanto para resistires às doutrinas daqueles que julgam o outro sem julgarem a si mesmos e que se propõem a consertar o mundo sem consertarem as desarmonias de suas próprias almas.

O intelecto deve calar quando o coração julga ter alcançado algo sólido e digno de ser vivenciado e expressado, difundido e enaltecido. Deve calar não porque não seja útil o questionar, o ponderar, o perquirir, mas porque a estadia na terra pede à alma de cada um muito mais do que um simples entendimento das coisas: ela pede pela aplicação desse entendimento em favor do próximo e em favor de si mesmo, no sentido da própria maturação moral e não meramente das titulações terrenas que nada valem diante da eternidade. O coração que acompanha o intelecto é o que pode potencializá-lo em favor do bem.

Não se afastem da sensibilidade mais humana, do sentido mais concreto e do sentimento mais real em nome de uma teoria ou de uma doutrina cuja faceta humanitária pode esconder a escassez de princípios e de verdade. A caridade não pede teorias que a justifiquem: pede um coração que sinta necessidade de vivenciá-la; o amor ao próximo não precisa das fórmulas abstratas da moralidade: precisa da sede da alma que quer servir. O descompasso entre a teoria e a prática se dá porque já no princípio desviaste a tua prática daquilo que te dita o coração. Se fizeres o coração acompanhar os teus gestos, as tuas obras terão a dignidade que nenhuma doutrina externa lhe pode dar.

O serviço ao Cristo é nobilitante, é exemplar e é indiferente a partidarismos políticos ou a confusões conceituais. Não permitam que as conturbações do dia a dia terreno, com todas as paixões que o movem e que as provocam possam macular o exercício maior ao qual submetes a tua alma: o aprendizado do amor vivenciado pelo evangelho de Jesus. Separar aquilo que o mundo requer de ti daquilo para o quê o Alto te chama é tarefa difícil, mas necessária, impositiva, diríamos, se não quiseres conspurcar de valores mundanos a doutrina espírita. Atenta para a divisão de teus afazeres e de tuas opiniões, porque opinião é algo que cada um pode ter, mas verdade é algo que só quem a tem pode expressar e essa expressão raramente se dará por meio de discursos polidos e bem-acabados, mas sim pela caridade de uma alma que se movimenta em favor do bem e em direção da luz.

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