Catarina Rochamonte e seus primeiros poemas – por Hildeberto Barbosa

Jornal Contraponto – Convivência Crítica

Catarina Rochamonte e seus primeiros poemas

A palavra poética estabelece, não raro, relações estimulantes entre o sagrado e o profano. Mais precisamente entre os rituais do erotismo e o sentimento místico-religioso. Diria mesmo, acostado em Octavio Paz, que é possível uma erótica verbal assim como é possível uma poética corporal como que regendo, na geografia do poema, o sacro mistério dos vocábulos e dos afetos, dentro de uma tradição lírica cheia de sugestões espirituais, a exemplo do que nos legou uma Sor Juana Inês de La Cruz, uma Santa Tereza, um Mistral, uma Cristina Rossetti, um Antônio Nobre, um Alphonsus de Guimaraens e tantos outros.
Tal consideração me ocorre porque tenho em mãos o livro de estreia de Catarina Rochamonte, intitulado “Eros em ascensão: poesias de amor e fé” (João Pessoa: Mídia Gráfica Editora, 2017). Paraibana, mestre e doutora em filosofia, estudiosa de Henri Bergson, Catarina está radicada no Ceará e desenvolve pesquisa acerca dos embates entre filosofia e espiritualidade, tanto em âmbito ocidental quanto oriental.
Sua poesia, reunida nesta coletânea, se não esconde certos deslizes e alguma insegurança no manuseio das palavras, como de hábito se dá com muitos iniciantes, revela, por outro lado, certa força expressiva, sobretudo quando o movimento poético adere ao testemunho dos sentidos, sem nenhum receio de privilegiar a subjetividade e seus encontros e desencontros com os apelos da vida, e dentro dos apelos da vida, o confronto com a própria linguagem. Por isto mesmo a voz poética esclarece logo no poema escolhido para a orelha do livro: “Meu trabalho é estar em toda parte/Dessa alma obscura e tão estranha/Há só um objetivo em minha arte/Arrancar o sentir de minha entranha”.
Pois bem: é essa a trajetória, assumidamente confessional, vazada no mais das vezes em versos longos, livres e brancos; outras vezes em versos metrificados, atentos ao imperativo das rimas e aos sortilégios da musicalidade, que faz de Catarina, nesse primeiro exercício público em torno da poesia, uma poetisa mais da expressão do que da construção, embora, aqui e ali, perceba-se, mais que a motivação interior, o primado da consciência lúdica da linguagem.
Se no poema “Tempo” (P. 70), a dicção atua na recomposição paródica, paródica, aqui, no sentido de canto paralelo, do “Eclesiastes”, o poema da página 23, “Versos volúveis e voláteis”, ecoa a voz do também místico e simbolista Cruz e Souza, principalmente pela modulação paralelística e aliterativa das palavras, senão vejamos: “Versos volúveis e voláteis/Ventos vastos a varrer/Volúpias vivas e vorazes/Velozes vilipêndios revolver/Voltando, voando, vês/Vaga visão vitoriosa/Vage, vê e vaticina/Vórtices volvendo vulcões/Viagens vindouras, Via-lácteas/Vênus a reverter violações/Veste o véu nos versos vãos/Vozes aqui voam e vão”.
Alguém pode ver aqui o mero jogo de armar, o simples experimentalismo por imitação, sem maiores consequências estéticas. Há um fundo de verdade nisto, mas, é preciso considerar que tais procedimentos, numa expressão ainda em processo e numa voz que ainda procura seus caminhos, já constitui um saudável desvio de uma poesia explicitamente sentimental, conquanto – diga-se de passagem – uma poética explicitamente sentimental não possa constituir, a rigor, uma poética de qualidade.
De outra parte, observo em Catarina Rochamonte uma via de acesso a uma poética mais densa, mais eloquente no dizer, mais substantiva, exatamente quando o eu lírico parece controlar a descarga das palavras e mensurar melhor os sentimentos, vindo à tona sinais reflexivos, já de uma voz que pensa, a partir de um viés minimalista bem mais vertebrado que a cadência discursiva da maior parte de seus textos. O poema “Murmúrio de Deus” (P. 50) me parece um bom exemplo: “A corda da vida/Liga dois pontos/O infinito da alma/E o murmúrio de Deus”. Neste mesmo diapasão, cito os seguintes versos: “Meu caminho é só interno/Não se mostra pra ninguém” (P. 51); “O mundo não é para delicadezas” (P.53), e “Há rumores sobre um subúrbio da alma” (P.55).
Além disto, uma nota importante deve ser assinalada: “Eros em ascensão”, em seus múltiplos percursos poéticos, traz o testemunho de uma nova dicção lírica, trilhando os tensos e intensos estreitos da pulsão mística, sem tornar a poesia uma serva qualquer de diretrizes doutrinárias ou numa vulgar catequese da fé. Se muita coisa se perde a partir da severa disciplina do valor estético, não há negar que a mágica luz da poesia verdadeira brilha aqui e ali nos esconderijos de alguns versos. E isto não é para qualquer um.

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