Corrupção e poder

O Brasil ressente-se hoje de um grande mal e está ainda sob efeito dos sintomas da doença que o debilita enquanto nação portentosa que poderia ser. Esse mal é o abuso de poder e a corrupção. Aqueles indivíduos que detêm cargos políticos são responsáveis pela manutenção de uma estrutura organizacional que visa ou deveria visar o bem comum. Essas pessoas sofrem, entretanto, de uma espécie de frenesi e de volúpia pelo poder e, assim, desvencilham-se cada vez mais de suas obrigações enquanto representantes de um povo que sofre, que luta, que trabalha e que ganha duramente o pão de cada dia com o suor de seus rostos. Famílias sendo despejadas por não poderem pagar um aluguel, pais debilitados por não conseguirem sustentar seus filhos, doentes desesperados sem alcançarem tratamento digno, parentes enlouquecidos de dor com o familiar a clamar socorro em filas de hospitais…tudo isso é o quadro diário de um país em que a outra face é a luxúria e o vício, a cupidez, a ganância, a covardia, a perversão.

Quando falamos alto o nome de um desses poderosos, parece que lhes devemos algo, quando, na verdade, são eles que devem ao nosso povo sofrido serviço, zelo e honestidade. Mas os poderosos só olham para si. Suas visões não alcançam além das próprias idolatrias; suas comoções não se estendem além de seus próprios distúrbios e seus caracteres não possuem a firmeza ou o brio que lhes fariam capazes de sustentar com dignidade o cargo que assumiram. Essa é a realidade do Brasil, o país da corrupção, o país da pobreza, o país do sofrimento alheio debitado em contas na Suíça, pois cada centavo roubado por esses políticos é minuto de vida roubado de um pobre que definha; cada dólar despachado em viagens e ostentações é o suor escorrido da testa de um homem de bem.

O sistema político está errado? Reformulem-no. A forma da administração pública é propícia a isso? Modifiquem-na. Os privilégios concedidos aos políticos os desvirtuam? Retirem-nos. Mas o grande resultado só virá quando o sujeito que ocupa um cargo público for um sujeito moralmente equilibrado, quando pessoas honestas e capazes resolverem também entrar na vida pública para assumirem as rédeas desse carro desgovernado que é a política brasileira. São muitas as tarefas, são muitos os desafios, mas também são muitos os bem intencionados que assistem a tudo isso com um misto de amargor, nojo e indignação.

Se você é um deles, não se deixe cativar por promessas de revoluções violentas no seio de cujos ideólogos palpitam desarmonias sombrias; não se deixe cativar pelo desatino sem freios de uma juventude irada e sem rumo; não se deixem sobretudo capturar naquilo que lhe é de valor absoluto: a sua consciência moral e o seu sentimento de dever. A sociedade desmorona, os valores são vilipendiados; a dignidade humana, porém, permanece incólume naquele que sustenta a firmeza moral dentro de si e não dentro de uma estrutura sistemática abstrata e alheia de um ideal porvir.

Este post tem um comentário

  1. É fácil constatar como fato o argumento de Trasimaco no livro I da República de Platão: “O justo é a conveniência do mais forte”.

Deixe uma resposta

Fechar Menu