Estupro e sociedade ou a falácia da “cultura do estupro”

O que se pode dizer diante da barbárie? O que comentar? O que argumentar? Muitos vociferam contra o infortúnio culpando a sociedade, como se a estrutura mental da coletividade pudesse impor ao indivíduo a brutalidade, a perversidade, o mal; como se a mentalidade social fosse mais forte que a robustez moral ou a imoralidade e a perversão.

O social tem um peso sim, não o negamos. As estruturas mentais coletivas induzem a determinados comportamentos, mas esbarram também na segurança de uma psique saudável cujo limite de ação é dado pela sua consciência e pelo seu caráter.

Muitas pessoas trafegam entre instintualidades doentias sem que deem vazão a isso. Por quê? Pelo senso de justiça que o impelem a serem diferentes do que seriam se se deixassem guiar pelos aspectos mais baixos da sua personalidade? Ou simplesmente pelo medo do castigo e do repúdio? Não sabemos ao certo. Mas sabemos que aqueles que sucumbem ao mal têm responsabilidade individual e intransferível. Não se deve transferir a culpa de um crime hediondo a uma suposta cultura machista ou “cultura do estupro”. Isso é fuga, é má fé, é equívoco. Cada um é responsável pelos seus atos, esteja na condição social e cultural em que estiver.

No caso que se debate atualmente – cuja sordidez da própria repercussão ainda em curso nos desobriga a detalhar – não há a menor dúvida de que a individualidade daqueles que cometeram o crime é a única referência que se deve levar em consideração porque não se trata aqui de um caso banal de uma delinquência qualquer que poderia ser jogada à conta de uma condição social, educacional ou cultural adversa; trata-se de brutalidade, perversidade e perversão e isso não está na sociedade, mas na psiquê de alguns indivíduos que a compõem.

A sociedade, escandalizada, reage como lhe é dado reagir: segundo as ressonâncias íntimas do impacto que causa o mal em alguns corações sensíveis ou segundo a frouxidão de caracteres que se comprazem em disseminar palavras a esmo sem se importar com a banalização do mal que resulta da simploriedade de suas palavras.

Calar diante da barbárie? Reagir com discursos? Qual a diferença? São ambos inócuos. Nem o nosso silêncio nem o nosso discurso irá tocar os corações monstruosos que perpetraram o ato insano. Então cuidemos dos nossos afazeres para que a justiça cuide dos criminosos e voltemos aos limites da nossa própria moralidade ainda por se construir, esquecendo esses dois limites que não tocamos: o do mal absoluto e o do bem desprovido de máculas.

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