Foge de ti! Mas não fujas da tua essência.

A cada momento, em meio ao delírio humano e às propensões delituosas, o alto age e conclama ao bem. A cada sopro do mal que instaura o terror e a discórdia, a benevolência divina intervém insuflando os bons espíritos à concórdia e ao esclarecimento. Em cada canto da terra, em cada quarto de um lar onde chora uma criança sozinha, em cada choupana miserável em que sofre um indivíduo aparentemente abandonado sempre há uma alma atenta, uma alma que vela, uma alma que chora por ele e se rejubila com seus êxitos diários. Em cada sofreguidão da mulher cansada há uma mão restauradora que a ampara; em cada sopro desalentador do trabalhador cansado há uma alma ansiosa por reanimá-lo e por fazer reviver nele a boa vontade e a alegria de existir. O bem reina soberano apesar de tudo.

Não se confundam, não se percam em meio às vossas próprias falhas. As falhas são cicatrizes de uma existência dura, porém digna. Digna pelo esforço, pela persistência, digna pela força com que o espelho acusa mas não destrói. Quem for capaz de se mirar, de se compreender nas próprias imperfeições sem se debilitar até a letargia ou sem se vangloriar dos próprios vícios e defeitos estará no caminho propício para o amadurecimento espiritual. O espelho é o ego; é aquilo que refletes diariamente nas tuas ações irrefletidas e imaturas, mas a profundidade do teu eu é o âmago da tua personalidade que quer recriar a si mesma no bem e no amor.

Foge de ti! Mas não fujas da tua essência. Foge do delírio e do auto-engano da personalidade que se fere, se exalta, e se envaidece; busca, porém, penetrar cada vez mais em ti mesmo, no compasso íntimo da tua alma que busca a serenidade e a luz. Tu és capaz de te manteres aí por mais tempo do que hoje te julgas capaz. Apenas serena o espírito e projeta menos o futuro a partir do teu ego perturbado e violento. Acredita no pai benevolente e misericordioso que a tudo provê, acreditando no esforço de uma vida e acreditando também naqueles que te envolvem diariamente em preces que tu não ouves, mas pressentes nos teus momentos de calma e mansidão.

Suporta o peso de uma vida de trabalho, mas trabalha com a leveza dos que amam servir e, assim, alcançando a paz ativa daqueles que servem e crêem, conquistarás aquilo que te é mais caro ao coração benevolente, corajoso e fiel.

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