Já és aquilo que almejas

A palavra erguida contra o inimigo retorna a quem a proferiu; a língua ferina fere quem a utiliza; a tristeza com que contagias o próximo retorna para ti; o amor que não se expande reduz-se a mesquinharias e amor-próprio; a luz que não ilumina a estrada alheia apaga-se.

É preciso renascer de novo para aproveitar a ingenuidade da criança, a leveza de suas palavras e a singeleza de suas ações. É preciso retornar ao corpo físico para que a transição entre a infância e a vida adulta possibilite o reajuste das emoções conturbadas. É preciso recuperar a estrada própria da tua primeira infância onde buscavas inocentemente a verdade sem pretensões dogmáticas e grandiloquentes. A criança busca a verdade por ímpeto de conhecimento, por interesse real e gratuito e, quando a encontra, alegra-se como se achasse um brinquedo com o qual se deslumbra. Quantos de nós somos capazes de receber com um sorriso a verdade alcançada? Quantos de nós brincamos alegremente tendo a certeza de que estamos seguros e protegidos sob o olhar amoroso do Pai que nos protege e abençoa?

É preciso recuperar a juventude, o brilho, a alegria. É preciso sorrir porque o sorriso genuíno – não o riso sarcástico ou histérico – é a marca da alma serena e entregue, potente e confiante em si mesma e naqueles que validam, legitimam e protegem a sua existência. A juventude brilha como o sol ardente, mas o seu brilho está sendo requisitado pelas sombras deletérias dos prazeres fúteis e destrutivos; a juventude vibra e pulsa, mas a sua pulsação está sendo desvirtuada e potencializada para o mal, para o decaimento, para a sofreguidão e letargia dos prazeres excessivos.

Seremos prontamente solícitos quando aqueles que hoje se perdem em despenhadeiros estiverem prontos para elevarem seus espíritos em busca de verdadeira sabedoria e de verdadeira ciência; estaremos sempre solícitos quando aqueles que desconjuram os céus afirmando a terra optarem por se erguer visando o céu. Pela régua que nos medem, nós os medimos: são existências opacas e espectrais, que se alimentam de vinho e não de valores, que se constroem com palavras e não com sentimentos, que se interessam pelo efêmero e não pelo eterno. Vidas vazias, opacas, nubladas, fechadas em si mesmas para aquilo que há de mais grandioso na existência: a lucidez que dela advém para o espírito. É o espírito que talha a matéria a seu favor; é o espírito que busca a existência para se aprimorar; é o espírito que luta, sofre, ama, se aprimora e é pelo espírito que deveríamos avaliar a nossa existência em todas as suas vicissitudes e em todos os seus sucessos.

Cala um pouco a mente confusa e cheia de incertezas; cala um pouco a alma amargurada pelas dores da vida; cala conscientemente; cala porque sabes que o íntimo recorte do teu coração é inocente e sereno. Analisa cada fato da tua vida com a alegria e o entusiasmo de uma descoberta: estás descobrindo a ti mesmo. Em cada situação, em cada circunstância, em cada adversidade se te revela a harmonia possível de ser alcançada pela plenitude das tuas forças e pela potência da tua fé.

Já és aquilo que almejas. Retira a trave do teu próprio olho. Olha e vê. O sofrimento é uma sombra, afasta-te dela. Busca o sol, busca a luz e deixa-te penetrar pelo calor. Esse calor revivificará os teus dias e sutilizará os teus sentidos. E o sol nasce para todos. Não és privilegiado por isso; apenas resolveste banhar-te nele, na luz que inunda a tua alma, na luz que transborda o teu ser. Tu conheces essa luz. Ela te chama hoje e te chamará eternamente porque Ele é a luz do mundo e a luz de todos nós.

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