Livre imigração e choque de civilizações

O problema da imigração – embora muitas vezes seja friamente discutido com dados e estatísticas- é uma questão humanitária que, muitas vezes, desperta sentimentos fortes, sugerindo aos contendores em torno da questão que há ali algo mais do que simples querela política a ser enfrentada com teses frias e raciocínios lógicos. Talvez seja um ponto que requeira de nós que nos posicionemos moralmente enquanto os fatos não se rearticulam ao nosso ideal, pois a dor de um indivíduo que se vê aviltado em sua própria terra e ali impossibilitado de tirar seu próprio sustento e de viver em liberdade faz com que os projetos de longo prazo cedam lugar a estratégias eficazes de defesa do indivíduo que se encontra em risco.

E eis que encontramos a palavra adequada – do ponto de vista filosófico e não pragmático – para se tratar a questão. Onde está o maior risco? Na aceitação ou na recusa em aceitarmos aqueles que nos pedem abrigo e proteção? Depende daquilo que para nós é mais importante preservar. Se, para nós, o mais importante é preservar a vida, talvez devamos nos precaver sempre contra aqueles que nos pedem ajuda; mas se aquilo que queremos preservar é a moralidade da conduta, precisamos averiguar se a tentação de fechar as fronteiras com a desculpa de que com sua abertura estaríamos arriscando a nossa segurança não é uma atitude que nos equipararia, de alguma forma, com aquele inimigo que deveríamos combater.

O inimigo em questão não é apenas o indivíduo isolado que atenta contra a própria vida e contra a vida dos outros em um atentado terrorista, o inimigo é a ideologia perniciosa que o mantém em circulação. Por óbvio, não estamos aqui postulando abstrações que inocentem a culpa do indivíduo que perpetrou um ato terrorista, estamos tentando conduzir a reflexão para o fato de que, se há algo válido para se preservar e algo concreto para se destruir, isso precisa ficar bem claro para que as concepções e condutas que nós mesmos adotamos não venha a fortalecer justamente aquilo que queremos destruir.

Pois bem, aquilo que queremos preservar é a nossa sociedade na sua identidade histórica, cultural e espiritual, uma sociedade em processo de abertura contínua para maiores conquistas que visem à elevação moral e à dignificação do ser humano. A defesa disso é muito mais importante, do ponto de vista moral, do que a defesa da nossa própria vida. Um soldado em um campo de batalha, sabemos, não luta exclusivamente por si e, mesmo querendo proteger a própria vida, não é simplesmente por ela que luta.

As ameaças que pesam hoje sobre o ocidente podem ser identificadas em três perspectivas: intelectual, política e religiosa. A primeira perspectiva é aquela que tenta minar e dissolver as características essenciais da nossa civilização a partir da educação e da transvaloração de valores: falamos do marxismo, marcusianismo, escola de Frankfurt de modo geral, todos os niilismos pós-modernos e todas as vertentes estruturalistas que visam reduzir o homem a mero apanhado de circuitos linguísticos; o risco do ponto de vista político é o alcance popular que as ideias marxistas ainda têm sobre as massas empobrecidas, seja por meio da militância de base que ainda apregoa abertamente as ultrapassadas e fracassadas máximas da luta de classes, seja por meio da máquina pública populista que assegura assistência aos mais pobres como forma de os manipular ideologicamente, fazendo do povo carente uma massa de manobra política a ser utilizada a seu bel prazer; por último temos que, do ponto de vista religioso, o que pode prejudicar o ocidente não é nenhuma das outras religiões orientais a não ser o islamismo. Não importa se aqui temos problemas pontuais com uma ou outra religião de matriz africana ou indiana que, com seu aparente politeísmo, incompatibiliza-se com a nossa realidade espiritual. Isso são contingências culturais plenamente aceitáveis em um ambiente de tolerância propício ao respeito mútuo, tal como apregoamos que sejam as nossas democracias liberais. O problema é o islamismo porque esse sim é, por princípio, incompatível com a estrutura política alcançada pelo ocidente. E o é por ser ao mesmo tempo uma religião e uma política ou uma religião política.

Diante desses três riscos nos quais estamos envoltos pelo simples fato de sermos entes temporal e espacialmente localizados na atual sociedade ocidental, combateremos simplesmente indivíduos que, por serem muçulmanos, portam ou traduzem aquilo que se nos configura como o risco maior? Não nos parece o melhor caminho. Antes de mirarmos em indivíduos precisamos combater local e globalmente, nacional e internacionalmente toda a ideologia que lhe sustenta as bases e isso passa por uma afirmação radical de nossos próprios valores. Como, porém, afirmaremos esses nossos melhores valores se falharmos na execução de algo tão básico quanto a proteção à vida na forma do humanitarismo já respaldado pelo direito internacional? Não podemos deixar pessoas necessitadas de ajuda humanitária à mercê daqueles que nos querem destruir e com esse intuito se utilizam dessas pessoas. Sabemos que a acolhida aos imigrantes, aos refugiados envolve um risco, mas precisamos enfrentar esse risco.

A condição, porém, de enfrentarmos esse risco sem sucumbir é a luta constante, irrefreável e destemida naquelas três frentes de batalha que configuram as principais ameaças atuais de desestruturação do ocidente. Precisamos, no âmbito intelectual e cultural, combater o materialismo, o marxismo, o progressismo e todas as ideologias a isso vinculadas e vinculantes. Precisamos, no âmbito político e econômico, assegurar o crescimento e o desenvolvimento, apostando em empreendedorismo, em capacitação, em novos modelos de gestão, em novas ideias. E, por fim, precisamos reaprender o nosso próprio sentido histórico e espiritual a fim de bem avaliarmos aquilo que está em jogo quando se encontra ameaçada a visão de mundo judaico-cristã.

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