Manifesto em favor da vida

A fabricação ideológica de ideias está vencendo a batalha contra o bom senso, a lucidez e a benevolência humana; a tentativa de incutir nos indivíduos morais a imoralidade e de desvirtuar os caminhos pelos quais a virtude ainda pode irromper é o que se tem visto nessa pós-modernidade tão cheia de si e tão distante da realidade e da vida na sua plenitude e pulsação originais.

Hoje, tenta-se construir uma narrativa a favor da interrupção da gravidez como se essa fosse uma mera questão hodierna e não algo que toca na profundidade da vida e no sentido do Ser e do humano. “Meu corpo, minhas regras”, elas dizem… “Seus corpos suas regras”, os magistrados e militantes dizem…

O que sabem de ser livres? Refletiram sobre o Art.4 da Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão: “A liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique ao próximo”? Quem está no ventre não é próximo? Ainda não é pessoa? E quando será? A natureza dá saltos?  Quem detém a autoridade de vida e morte sobre esse corpo minúsculo e potencialmente criador? Aqueles que se arrogam o direito de dar fim a uma vida nem sequer questionam o que a vida é, mas julgam-na pelas interpretações apressadas da ciência ou de um senso comum já tão embotado que não consegue sequer apregoar a sua própria responsabilidade de humano.

O ser humano, o indivíduo, o sujeito que está no mundo foi – em um determinado momento da história – elevado à categoria de pessoa, de cidadão, de entidade arrolada de deveres e de direitos “naturais, sagrados e inalienáveis”, ganhando autonomia e direito de existir, dignificado em si mesmo com uma valoração absoluta. Ninguém teria, dali em diante, o poder de investir contra a sua vida sem que a lei interviesse, punindo o agressor. O direito à vida, a inviolabilidade da pessoa humana, a proteção legal são marcos civilizatórios.

O indivíduo, além de ter direitos inalienáveis é ele mesmo inalienável em sua pessoa e nas suas escolhas. Escolhe onde trabalha, escolhe onde vai, escolhe se se sujeita ou não às leis que o regem. Se não as aceita, deverá sujeitar-se ao fardo de não aceitá-las tornando-se um “marginal”, aquele que está à margem da lei, que não a segue, que a rejeita, que não respeita os concidadãos através da limitação da manifestação da sua vontade, que insiste em se afirmar contra e a despeito do outro, do próximo, do mais visceralmente próximo, do “amontoado de células” que lhe atravessa a vontade de poder, a vontade de se satisfazer, a vontade de gozar e de fruir, de viver e de usufruir da vida como se a vida aí estivesse apenas para o seu deleite.

O desvio moral, o estar à margem é uma perturbação social em uma conjuntura maior afeita à lei e à concórdia, ao limite e ao respeito mútuo das vontades que interagem na fluência própria da vida. Mas agora querem fazer da margem um marco, do desvio a regra, do pecado a lei. Querem legalizar o aborto, a covardia, o assassinato do mais inocente de todos os inocentes: aquele que ainda nem teve a chance de nascer, aquele que está em germe, de perninhas cruzadas e dedos na boca, respirando pelo ar de quem gozou, alimentando-se do sangue de quem fruiu, sustentando-se da vida de quem da vida tirou prazer e agora não se responsabiliza diante do milagre que a natureza consumou transformando a fruição em um dever, trazendo ao homem e à mulher, aos pais, a responsabilidade de viver dentro de certos limites, dentro de certos padrões, dentro de certas dificuldades que são inerentes à vida e que se vence com vontade e vigor, com coragem e altivez.

Não aceitemos a tergiversação, o sofisma, o crime. Não aceitemos que um a um sejam solapados os valores morais sobre os quais se ergue essa civilização ainda tão frágil e imatura, não testemunhemos calados a transformação da nossa sociedade em uma Roma decaída onde o gozo, o prazer, a luxúria e o poder estão acima de tudo.

Relutemos, mesmo que o raciocínio falhe contra as artimanhas ardilosas dos intelectos que se prestam a advogar em favor do mal, mesmo que a vontade de pertencimento a algum grupo queira se impor. Sustentemos aquele fio tênue de humanidade que nos liga ao céu, ao sagrado; sustentemos a dignidade absoluta da pessoa humana nessa pessoa em formação para que os legisladores do passado não se vexem com a decadência das nossas legislações e para que as gerações vindouras não encontrem uma sociedade largada às serpentes e imersa no caos.

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