Marxismo, juventude e contracultura

O marxismo construiu uma imponente tese acerca da estrutura social e precisaríamos de mais alguns séculos para desestruturá-lo, não fosse a própria consequência da teoria a dar testemunho do grau de imaturidade de suas pretensões. O alcance teórico daquilo que se efetua de maneira nefasta só pode continuar a fazer efeito sobre as mentes nas quais o pensamento parou de avançar, pois o reflexo real de projeções ideais há de ser sempre o solo mais propício à averiguação.

Nada depõe a favor da tese segundo a qual seria possível alcançar uma estrutura social justa sem que o indivíduo seja ele mesmo o ponto de partida da sua efetivação. Não há fórmula teórica ou estrutura política capaz de romper a desigualdade material que tanto exaspera os autoproclamados socialistas sem que o indivíduo se veja coagido a buscar a justiça intimamente, começando a ser justo consigo mesmo, na compreensão da sua condição de animal ainda por evoluir, de ser humano frágil e incapaz de grandes ações verdadeiramente virtuosas.

O que temos contra a perspectiva socialista – seja lá sob que matizes ela se apresente – é o engodo no qual recai aquele que se autoproclama arauto de nobres e justas revoluções, descurando o nível em que se encontra no modo como satisfaz os seus instintos ou no nível de putrefação do seu caráter, que acaba por testemunhar contra o alcance real de sua atuação no mundo. O indivíduo e aquilo de que é capaz enquanto ser moral e espiritual é o que nos interessa.

Não obstante, aceitamos a crítica ao atual modelo de distribuição de riqueza. De fato, é injusto, não o negamos. Até simpatizamos com aqueles que não se dão por satisfeitos com tais condições. A questão é pensar possibilidades viáveis de mitigar a injustiça, dentre as quais não vislumbramos como profícua aquela que busca distribuir a riqueza a partir de um modelo burocrático e centralizador, que pretende interferir na livre concorrência, diminuindo com isso a qualidade de produção que já alcançou na maioria dos casos o nível de excelência e rompendo também o necessário distanciamento entre o político e o econômico.

Não nos compete aqui traçar diretrizes para diminuir a desigualdade social. Enquanto indivíduo cujo âmbito de atuação é meramente reflexivo, quiçá formador de opinião, optamos por abordar o assunto do marxismo dentro de um contexto mais próximo à nossa realidade, qual seja, o problema da docência no Ensino Superior.

Não há no Brasil ambiente acadêmico propício ao pensamento autônomo se essa autonomia não for a de um circulo dentro de um círculo maior, ou seja, o pensamento hegemônico dentro da academia acaba sempre por ser extremamente asfixiante para aqueles cujas ideias transgridem a própria ideia de transgressão, para aqueles cujos valores marcam a alma e a consciência antes de induzirem ao conflito social e para aqueles cujas páginas são antes o rasgo de um pensamento em maturação que a continuação das letras tortas já traçadas pela intelligentsia que se sustenta a si mesma em sua simbiose parasitária e paralisadora do pensamento, sem abrir rotas de fuga para uma reflexão nascente. Não há ali espaço para se pensar politicamente sem que o politicamente correto te queira balizar e não há espaço para efetuar um percurso de autoconhecimento sem que o imoralismo reinante venha recriminar a tua própria busca de perfeição moral.

Contraditoriamente, a universidade passou a fornecer modelos de contracultura como sendo a cultura mesma e esta, por sua vez, vem sendo desqualificada como obsoleta e desnecessária. Esses elementos – o imoralismo elevado à máxima dignificação e o marxismo erguido aos status de máxima teoria – colaboram juntos para a formação de uma juventude ainda mais imatura que a geração anterior e séculos ainda seriam necessários para que esse estado de coisas fosse alterado, não fosse o dinamismo próprio da evolução moral de cada um, que torna aqui e ali alguns indivíduos impermeáveis àquilo que a sociedade lhes impõe.

Tais indivíduos haverão de lograr êxito nas estradas solitárias que tateiam em busca de conhecimentos sólidos e de verdades imperecíveis. Tais estradas se cruzarão com outras e então algo novo poderá fazer brotar uma geração mais leve, mais serena, mais autônoma e mais humana. Nesses dias, aquela parte da ciência que carrega este último adjetivo, as ciências humanas, terão pelo menos encontrado um caminho de investigação diferente daquele cuja obsolescência já torna velho os jovens que o trilham. Aí, talvez, as faculdades possam voltar a formar homens, ao invés de recrutarem militantes para as suas causas difusas.

Este post tem um comentário

  1. Parabéns Doutora Rochamonte! A lucidez deste artigo é impressionante em meio ao mar de tolices apregoadas por “doutores”, com letras minúsculas mesmo, cuja única finalidade não é a do Ensino, de elucidar, esclarecer, se não somente confundir e doutrinar.

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