O sagrado, o profano e a “arte” de profanar

O sagrado está no mundo como o sol que ilumina a terra: em cada mente aberta, em cada oração convicta, em cada ação generosa, em cada sentimento estético cujo conteúdo é mais alto do que aquele que o contempla, em cada sentimento religioso e em todas as religiões. Profanar o sagrado só pode servir a uma causa de destruição, a uma mente doentia, a uma alma desamparada e aflita. Profanar o sagrado só pode testemunhar contra a saúde mental de quem profana e não pode, de forma alguma, servir de pretexto para o progresso, pois não há progresso quando o que há de mais elevado sobre a terra, quando o sentido mais alto que o homem pode alcançar é banalizado e aviltado. A arte profana (arte não religiosa) não é a “arte” de profanar, não tem a característica de perversão que encontramos em algumas exposições polêmicas. Perversão é o contrário de arte e profanação é tão somente uma forma de exteriorizar a desordem psíquica de um indivíduo. Criar é doar ao mundo um interior repleto, exteriorizando a busca íntima e deixando na matéria aquilo que a ideia alcança ou a intuição que alcança a ideia. A arte ontem, hoje e sempre será a exteriorização do que há de profundo no homem. Se das profundezas de uma alma organizada brota a beleza e a harmonia, das profundezas de uma alma encegueirada brota o caos, a desordem, a vontade de violência, o ímpeto de profanar, pois, ao profanar, o pobre indivíduo quer dizer ao mundo que o sagrado que ele não alcança não existe ou que o ideal que ele mal enxerga a ninguém convém. Ao profanar, ele, o indivíduo perdido, deslocado, desvairado, agremia atrás de si aqueles que não buscaram e que por isso não encontraram ou aqueles que não encontraram porque não insistiram, já que a beleza, o sentimento da harmonia, da ordem ou do sagrado é vívido e claro para todos aqueles que não estejam cegos pela rebeldia, pela vileza ou pela ignorância. São covardes aqueles que querem dar ao mundo o testemunho do seu caos interior ferindo o sentimento sutil e sublime de espiritualidade daqueles que já olham para fora da lama de si mesmos. Ferem ainda a nobreza de sentimento daqueles que ainda têm na arte um espaço mínimo de transcendência mesmo quando não creem na existência do Ente maior por meio do qual essa transcendência se faz. Não sendo capaz de se alçar à dignidade própria da arte, essa “pseudoarte” – que manipula a matéria a fim de expressar a desordem psíquica, moral e estética de uma criatura – tenta forçar a arte à indignidade. Lamentavelmente essa falsa arte é a tradução da a alma pós-moderna: vazia, niilista, terrível no seu sentimento do grotesco, descendo vertiginosamente para o abismo da animalidade, da bestialidade, da completa ausência de pudor e de sentimentos sublimes. Ela reflete ainda o projeto político e cultural de uma ideologia materialista, imanentista, profana, anticristã por excelência. O tipo humano que essa pseudoarte reflete é o humano que decidiu pela bestialidade e segue blasfemando e praguejando contra a sua própria dignidade; é o homem que volta a compactuar com seus instintos mais primitivos, é a figuração emblemática de uma civilização náufraga, cega e delirante. Não é arte para diversidade, não é arte para a tolerância, não é nem mesmo arte para a transgressão, é apenas um exercício pueril e pernicioso de uma representação possível do nível de degradação cultural ao qual o homem retornou.

 

Deixe uma resposta

Fechar Menu