Reflexões sobre história e sociedade

A história atravessa a humanidade como um segredo que se desvela. O processo é contínuo e a linearidade não se encontra na propensão dos homens, mas na estrutura básica que os mantém e que os organiza sem que a vinculação a essa predisposição social o prejudique mais do que o faria ele mesmo tentando moldar a sociedade ou a história ao seu bel prazer. O historicismo dá conta de algo que tentamos dizer, mas peca por induzir a uma reflexão que considera penetrável aquilo que de tão envolvente é quase imperceptível e que de tão vital é quase irracional.

O fluxo da história tem uma organização intrínseca e tenta fazer a humanidade avançar para uma maior harmonia consigo mesma e com a realidade que a contém.  O homem, porém, traduz a sua própria reflexão como a trajetória histórica e perde de vista que o ideal que o fez pensar e refletir transforma-se tão logo ele reflita e pense, gerando uma onda irrefreável de ideias e potencialidades cuja harmonia depende de instâncias que lhe escapam. O tempo – no sentido daquilo que mede, contém e limita o homem é também a força ou o potencial capaz de o atrair para o futuro, para o sentido primeiro da proposta lançada à humanidade e que pode ser traduzida em poucas palavras como caminho de libertação e de conhecimento.

Liberdade e autoconsciência são as mais altas categorias a mobilizar a estrutura da sociedade e, por nossa luta em torno delas, consolidaram-se como valores a serem buscados sob as mais árduas condições. Ser livre e estar, de algum modo, condicionado pela sociedade, significa ser livre e deixar-se guiar pela lei de evolução que rege o corpo social independentemente da reflexão e da autoridade de qualquer indivíduo. Ser livre e ser, de algum modo, condicionado pela sociedade, é estrutura básica do humano, cuja maior conquista seria antes a autonomia frente a si mesmo.

Obstáculos exteriores só têm poder diante de nós se com ele nos relacionarmos em um nível de igualdade que depõe contra a nossa independência interna. Somos senhores de nós mesmos. Somos indivíduos ciosos, conscientes, reflexivos, morais, espirituais, autônomos. Tudo o que o mundo pode contra nós é fazer tombar nosso corpo e esfacelar nossos sentimentos. Mas se supusermos que somos – e somos – mais que os nossos próprios hábitos e mais que nossas próprias afecções, haveremos de encontrar uma força interior capaz de triunfar sobre quaisquer condicionamentos sociais no qual suponhamos estar imersos.

Há, de fato, uma estrutura rígida a pesar sobre nós e independente de nós. Ela traduz o acúmulo das necessidades vitais que pesam sobre o homem e que a própria natureza trata de suprir através da organização social que melhor se lhe adapte. Nada, pois, do que se dá enquanto totalização social, ou seja, enquanto corporificação global e unitária de valores e ideias pode ser rompido simplesmente pela imposição de valores de uma tal ou qual ideologia, visto que aquilo que se consubstancializou enquanto tradição e valor cultural depende de séculos, milênios de trabalhos individuais cuja convergência em torno de uma ideia capaz de se realizar é viabilizada por forças que escapam aos domínios da reflexão racional.

O multifacetado espelho que é a sociedade traduz a história do homem sobre a terra em seus mais variados reflexos. Cada cultura, cada povo, cada momento histórico representa uma parcela de colaboração ao projeto inicial que visa àqueles dois valores já referidos: liberdade e autoconsciência. Se nos dermos conta disso, se soubermos enxergar com humildade, mas também com lucidez que a matriz social na qual estamos imersos é o resultado do influxo infinito de consciências individuais, abriremos mão da pretensão de impor nossa visão de mundo ao todo e tentaremos somente colaborar como soldados em uma batalha eterna para que aquilo que a história já nos legou possa penetrar nossas mentes da maneira mais saudável possível. Selecionaremos do que já foi aquilo que nos servirá de lição para o porvir, cuja construção depende, de fato, de nós, mas não enquanto agentes capazes de modelar a sociedade segundo nossas frágeis projeções, mas sim enquanto indivíduos conscientes de que há um poder que age sobre nós e que dispõe de nós para que a humanidade avance.

Reconhecer a limitação humana é estabelecer limites de ação condizentes com a nossa realidade de seres capazes de agir com toda potência e plenitude, desde que aquilo a que nos propomos vise ao bem imediato ou imediatamente futuro de que somos capazes enquanto indivíduos e não a um suposto bem que dependeria de uma imposição de valores que não nos compete.

Não somos elaboradores de teorias grandiloquentes, somos seres humanos em evolução e o primeiro passo nessa caminhada infinita é o exercício do bem por si mesmo, em si mesmo, sem ambições capazes de subtrair de nós a capacidade de autoanálise, sem pretensões que se choquem com a realidade, sem atitudes que firam a consciência moral que deve nos nortear sempre e sem delírios de travessias utópicas para uma sociedade perfeita.

 

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