Revolta, terrores e revoluções

Tudo na história amadurece
Como planta que jamais fenece
E o outono vem pra triunfar
Novo fragor do ser fazer notar

Entre atos banais e comezinhos
Misturam-se enredos, desalinhos
Que camuflam o real em um retrato
Como se o devir fosse um contrato

O império cai, a terra fica
A linguagem constrói e mitifica
E o homem não para em um lugar
Mesmo assim não consegue caminhar

Não enxerga o mistério mais profundo
Conspurca-se no vasto antro do mundo
Deixando a miséria moral o visitar
Transformando em tragédia o despertar

Da consciência que pensa que é profana
Que não traduz caridade, não se irmana
Ao mais pobre que julga proteger
Sob ideal que só o faz recrudescer

Sentimento real não se descobre
Na ideologia servil que só recobre
Profunda amargura e dissabor
Rebeldia, vileza e pouco ardor

Pois o ardor pela luta que enobrece
Não levanta bandeira que escurece
A visão dos que querem levantar
Da poeira do chão a rastejar

A libertação que querem se conquista
Na conquista de si, na redenção
Do si mesmo que busca em comunhão
Sem que ouse sequer erguer a vista

O poder mais severo e incisivo
O corcel e o levante coletivo
Que merece apoio e entusiasmo
É centelha fugaz, é um espasmo

É consciência de si em harmonia
Com a história que vem do infinito
É pôr-se a si mesmo em sintonia
Com o movimento aberto e indefinido

Revoltas, terrores, revoluções
Não passam de profundas convulsões
Histéricas e estéreis a transmutar
A energia vital por sublimar

Se o mundo soubesse ser mais forte
Essa odisseia de sangue e de morte
Esse palco armado pelo povo
Despencaria ante algo novo

Mas a humanidade é assim, uma criança
Que traz impiedade e esperança
Só acolhe o que quer e o que convém
Renegando o passado que a contém

Donde vens, homem célebre a triunfar
Nesse instante solene a esbravejar
Tantas teses insanas e sofridas
Tentando universalizar tuas feridas?

Bebe o fel de ti mesmo, teu dissabor
Não transporte pro outro o teu rancor
Tua revolução não faz sentido
Por que queres o outro convertido?

Se te julgas em nome da justiça
Atravessa o portão do teu terraço
Olha para o vizinho em pé descalço
E vê qual sentimento te atiça

És capaz de amar de coração?
Com real sentimento deste o pão?
A piedade que tens é verdadeira?
Ou só tens uma mente aventureira?

O delírio, enfim, da multidão
Que se julga a serviço sem servir
Que se serve a si mesmo ao esculpir
O projeto de qualquer revolução

É achar que já basta ser pensante
Para já não ser um ente delirante
Mas o sentimento que têm nem mesmo alcança
A nobreza ideal de uma criança.

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