Sócrates e o sentido de ser filósofo

A filosofia socrática inicia-se com uma reflexão acerca do Bem, do que é em si, do que tem valor absoluto a despeito de circunstâncias, de humores, de políticas, etc. O homem Sócrates, o indivíduo Sócrates arregimentou atrás de si uma multidão de adeptos, de admiradores, de discípulos. Sua fala, seus diálogos, seu exemplo, principalmente, sedimentaram uma linha de pensamento que deu origem a um modelo de vida e esse modelo de vida é justamente aquele que concebemos como “filósofico”. O filósofo não nasce, portanto, da especulação metafísica, mas da escolha pela vida melhor e pela reflexão acerca das formas de conduzir essa melhor vida.

O filósofo como aquele que busca se conduzir bem e que reflete sobre a sua conduta é diferente do filósofo que especula sobre a estrutura cósmica que obriga a conduta a ser boa, ou seja, se, de um lado, a metafísica grega na forma aventada pelos pré-socráticos já conduzia a reflexão a uma estrutura capaz de pensar, no âmbito cosmológico, as noções de Bem e de justiça, de equilíbrio e harmonia, em Sócrates essa reflexão desce dos céus para a terra, do Cosmos para a Pólis, do templo para a Àgora. Assim, pode-se dizer que refletir eticamente a estrutura ética do universo é justamente o empreendimento socrático.

Suas concepções cosmológicas não estão em desacordo com as concepções que se depreendem nos seus diálogos, mas tais concepções cosmológicas não podem servir para sustentar um discurso filosófico centrado pela primeira vez no homem, na absolutez do caráter e da conduta moral. Essa filosofia precisaria, portanto, partir do logos dialógico, do diálogo, da interação com o outro, com o indivíduo que almeja saber, com o indivíduo que julga saber ou com o indivíduo que quer comandar. Assim, Sócrates inaugura o percurso filosófico interacional, dialógico, social. O percurso do Logos habitando o íntimo e o outro, o logos universal e particular se entrecruzando na própria fundamentação ética que atravessa os diálogos.

Em Sócrates entrecruzam-se as esferas cosmológica, epistemológica e ética que comporão mais tarde as diretrizes básicas da Filosofia como disciplina. O que se

perde, porém, nesse processo de lapidação progressiva do conhecimento filosófico é a relação do saber com o indivíduo; perde-se o indivíduo como produtor dessa cadeia de associações teóricas e perde-se o indivíduo como entidade transformadora de si mesmo e do mundo, que cede o seu lugar a indivíduos subjugados por uma tradição que pesa sobre si.

O sentido, pois, do debate entre Sócrates e os sofistas parece-nos cada vez mais atual e premente por tratar-se do debate entre a Filosofia que se constitui por uma via de reflexão vertical e profunda, em sentido ético e espiritual e uma Filosofia que se constitui por uma via horizontal e acumulativa, ou seja, trata-se da perspectiva erudita contra a perspectiva que chamamos mística, se por místico entendermos um conhecimento que busca arrancar um sujeito das entranhas de um pensamento em germe, de um sentimento moral ainda não amadurecido, de uma alma ainda não desvelada, de uma teoria ainda por se produzir. O sujeito, nesse caso, não é o ponto de partida, como na modernidade, mas uma construção, uma conquista, o resultado de um esforço feito sob o amparo ou sob o olhar de um mestre cuja superioridade moral seduz e faz ir adiante.

O filósofo é, pois, aquele que seduz, é o eros sublimado que atrai o outro para o saber por via erótica; é o santo mundano que transita longe da religião pela qual anseia por sentir em si uma carência que só é preenchida pelo domínio intelectual de uma mente que explode em potencialidades diversas e pelo domínio moral de uma alma que tergiversa entre o lar divino e o lar terreno, entre a calma do sábio e o desepero dos que desejam saber.

O filósofo só se encontra em universidades por mera contingência; o filósofo só defende teorias que tenham brotado da sua experiência radical de si e do mundo; O filósofo, portanto, não pode ser o erudito ou o que vende a erudição ou o que está escravizado ao desejo de acumular conhecimento, porque o excesso de conhecimento em solo infértil é um peso, é um fardo. O filósofo não pode ser o tagarela que fala sobre tudo a todos nem o eremita que fala apenas consigo. O filósofo é antes o amigo, aquele que fala aos seus, àqueles cuja alma entra em ressonância com a sua por

simpatia. O filósofo é um aristocrata dos sentidos, dos sentimentos e das ideias, enquanto o sofista é o demagogo de seus ideais. A filosofia é também uma conversão. Uma conversão a si e ao outro. Não no que o outro tem de social, mas no que o si mesmo tem de comunhão com o outro.

A filosofia é, desde seu início, desde seus primórdios, uma alta sapiência, um desafio ao indivíduo, uma luta contra si mesmo e contra a ignorância congênita, inerente à natureza humana. O filósofo, por mais estranho que pareça ao seu meio, traduz o anseio humano por um saber real, por um saber profundo, por um saber capaz de nos arrancar da mediocridade das opiniões contraditórias e capaz de nos fazer atravessar a imensa massa de emoções confusas que caracteriza os nossos estados de ânimo. Não se propõe uma tarefa intelectual sem que a existência de quem a propôs esteja em jogo. Isso significa que a mera tradução em linguagem filosófica da superficialidade de uma personalidade não pode ser chamada filosofia. Há que se resguardar esse termo para que se faça jus àqueles cuja vida foi um tributo ao saber e à busca, àqueles cuja existência devotada ao esforço intelectual nos legou as mais altas formulações nas quais até hoje meditamos. Não estaremos, pois, fazendo simples contenda se apontarmos a ingenuidade que se expressa na afirmação de que tais ou quais figuras da mídia são filósofos; estamos apenas estimulando os jovens que almejam o exercício intelectual a se entusiasmarem por aquilo que realmente é filosofia. A filosofia é o estandarte da civilização que busca a verdade e não a secularização banal de verdades em fórmulas estéreis e de fácil compreensão.

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