Tolerância religiosa, multiculturalismo ou revolta contra a civilização ocidental?

Os sonhos ecumênicos e de tolerância mútua entre as religiões diversas, os anseios de paz e a abertura moral que visa resgatar um espaço de concórdia para que se aceite o outro, o estranho são movimentos efetivamente pautados em uma boa vontade e devem persistir, desde que persista também a lucidez com relação aos desvios desses ideais e principalmente com relação aos riscos de que, sob o falso pretexto de união, se intente contra a verdade que, embora se manifeste de maneira parcial e múltipla, é, no entanto, una e absoluta. Quando, sob o manto da concórdia entre as culturas e as religiões, busca-se malbaratar as religiões e culturas que mais sustentam a possibilidade dessa concórdia, então estamos diante de um grave problema cuja sutileza e complexidade faz por merecer uma breve, porém, importante nota que ensaiamos aqui.

O ecumenismo, dizendo respeito às tradições cristãs, e o diálogo inter-religioso que possibilita a interação com aqueles que não têm Cristo como centro de suas doutrinas é o movimento natural da democracia pluralista e livre que somos. Mas todos percebemos certa resistência do povo em aceitar passivamente a inclusão de propostas educacionais que induzam à promoção de práticas religiosas adversas ao cristianismo e isso não se dá simplesmente por preconceito ou intolerância religiosa, mas porque trazemos conosco um histórico imemorial de nossos antepassados que se nutriram de uma fonte de conhecimentos e valores que pouco de compatível encontra em relação a outros princípios religiosos aos quais devemos efetivamente respeitar mas aos quais não devemos necessariamente reverências e louvores.

Diz-se respeitar a laicidade, mas no que tange às religiões estranhas ao credo da maioria abre-se larga margem de tolerância à sua divulgação nas escolas. Insiste-se por aqui que é necessário e saudável incutir nas cabeças jovens e inocentes a pluralidade religiosa, pulverizando em suas mentes e corações aquela pedra maior que é o sustentáculo moral do ocidente, embora nenhum dos professores que abertamente apregoam desatinos contra o cristianismo estejam dispostos a aguentar as consequências de uma sociedade ou cultura que não tenha sido modificada pela mensagem cristã.

Por mais que alcancemos a importância do respeito mútuo entre as religiões, não nos entusiasmamos a defender a duras penas a proliferação de cultos sem que antes se tenha firmado o compromisso com o respeito amplo e irrestrito em relação à nossa própria tradição, religião e cultura. Mas não é isso que se dá. Pelo contrário, constatamos consternados que a ideia de “multiculturalismo” tem servido de álibi para blindar todo tipo de cultura, exceto a ocidental e que a pretexto de se combater a “intolerância religiosa” tem-se blindado quase todas as religiões, exceto o cristianismo. Isso pode ser facilmente constatado ao atentarmos para o fato de que no mesmo movimento em que o ensino religioso de matriz judaico-cristã vem sendo afastado do currículo escolar, o ensino de outras religiões vem ganhando proteção e respaldo sob a justificativa de se estar combatendo o preconceito racial por meio da difusão de outras culturas.

O fato, porém, é que por trás dessa suposta defesa da tolerância religiosa e do multiculturalismo esconde-se um pensamento ideológico cuja consolidação depende intimamente da desconstrução da nossa identidade como ocidentais, identidade essa que remete a um movimento cultural e espiritual grandioso que se tem tentado insistentemente negar. Não se trata mais apenas de dar espaço a abordagens historiográficas alternativas, mas de deslegitimar a matriz judaico-cristã como matriz principal da nossa cultura.

Vivemos um paradoxo social que consiste em um sistema educacional que é fruto do trabalho indefinido do esforço humano de libertação das amarras da autoridade e da heteronomia e que, no entanto, defende que essa mesma civilização que lhes assegura a liberdade de pensar forjou-se pelo poder imposto pelo mais forte, tratando-se, portanto, de uma autoridade que se esconde sob a forma de valores impostos por uma classe dominante com a finalidade de subjugar os mais fracos ou desprovidos de bens de produção. Essa concepção compromete a própria ideia de humanidade e universalidade que sustenta a liberdade de escolha e de expressão e que favorece a democracia.

A estrutura social, muito embora seja palco de jogos de poder em múltiplos sentidos, tem uma gênese distinta desses mesmos jogos, já que é nela, nessa sociedade em que vivemos, que se pôde construir um ambiente propício e aberto ao debate de ideias. A civilização que nos abriga tem uma história de lutas e de conquistas morais que possibilitou ao pensamento humano chegar onde está e respeitar a opinião do outro sem tentar desmoralizá-la ou suprimi-la. A civilização que nos abriga possibilitou que em seu interior fossem construídas, inclusive, teorias que visavam a destruir seus próprios alicerces e essa mesma civilização assegura a tais teóricos a liberdade de o fazer.

Diante disso, precisamos nos precaver para que essa revolta contra a história da civilização ocidental que se verifica na linhagem de pensadores marxistas não se imponha à ingenuidade de uma juventude que mal conhece os seus antepassados culturais, impedindo-a assim de valorizar a longa história da espiritualidade humana cujo ponto de culminância nem sequer chegou a ser ainda vislumbrado por aqueles que querem ver no ideal da nossa civilização apenas um fantasma ideológico de metafísicas vãs ou na história social apenas lutas entre grupos, negando-se a enxergar o dinamismo próprio de uma ideia que, na sua passagem, deixou atrás de si as construções morais e intelectuais que nos distinguiram como uma civilização livre e autônoma, como uma democracia ainda em germe – se por democracia entendermos a liberdade que, irmanando-se à igualdade procura levar adiante o ideal de fraternidade universal que o cristianismo difundiu.

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