“Conhece-te a ti mesmo” é a esfinge que fala ao homem inconstante, que tateia angustiado o seu rumo no planeta de expiação; é o inquirir da alma acrisolada que anseia pela libertação; é o percurso necessário para a obtenção da autoiluminação e do manancial inesgotável de amor, que é o próprio Deus.

Como o ser que não se conhece, que não enxerga em si as limitações próprias da condição de humanidade às quais estão sujeitos todos os seus irmãos pode amar? Como pode viver plenamente aquele que não reconhece na psique atormentada os martírios resultantes de seus próprios erros e incompreensões?

Como pode evolver aquele que não sente a tepidez que demora a se dissolver, a animalidade que custa a retroceder, a instintualidade que insiste em sobrepujar as nossas vontades sãs? Como pode alguém escutar a sinfonia celeste sem abrir o ouvido primeiramente para o ruído da própria inconsciência? Como aquinhoar-se de valores morais sem reconhecer os próprios limites e imperfeições? Como, enfim, subir para a nossa destinação maior sem antes visitar o nosso passado que se encontra submerso nas entranhas do nosso ser com os seus automatismos e com as suas repetições?

O ser humano está destinado à luz, mas essa luz tarda a vir quando não se faz um esforço disciplinado para remover os obstáculos que impedem a lucidez. Esses obstáculos são os transtornos das condutas equivocadas, que geram sequelas psíquicas e que, por sua vez, nos fazem estagnar em uma poça de lama como se aí se tratasse de um rio muito limpo.

Não há mais tempo a perder com fantasias, com malversação do tempo precioso. É preciso compreender que somos seres comprometidos, com um passado cármico que vive em nossas potências adormecidas e que precisa ser vencido pela luz maior que emana da fonte criadora da vida, mas que precisa do nosso concurso para iluminar as nossas próprias trevas íntimas.

Purificar o ser não apenas por rituais exteriores, mas pela vontade armada de fé; não apenas pela palavra bonita que se profere ou se escuta aqui e ali, mas pela permanência na luta, no dever, até que o espaço sombrio do ser seja clarificado pela luz divina que emana de cada ação boa que realizamos no mundo e de cada ato de contrição verdadeiro no qual o nosso coração sofrido e inquieto se entrega ao Senhor supremo da vida.

A alma humana é um recipiente. Esse recipiente está turvo, cheio de emoções confusas e desajustadas. É preciso limpar o recipiente. Eis que surge o sofrimento purificador do qual muitas vezes tentas fugir.

O sofrimento nos faz mais atentos, mais introspectivos, mais ciosos do propósito divino ao nosso respeito. O sofrimento nos faz mais fortes depois que o atravessamos porque rasga o véu da vaidade, do orgulho, da imponência, que muitas vezes nos impede de ver com olhos de ver e de ouvir com os ouvidos de ouvir, tal qual Jesus nos alertou.

O sofrimento faz com que nossa estadia na terra não se resuma a uma frívola busca de prazer e autossatisfação. Ele nos convida a assumir as altas responsabilidades que nos cabem e ele nos põe frente a frente conosco mesmos, com nossa fragilidade, com nossa imaturidade, com nossa revolta e indiferença.

Acaso não vês que o sofrimento perpassa todo o globo? Que a aflição que se te assoma não é mais importante que a do teu irmão? Acaso não enxergas que o poder de ajudar que te é facultado pela providência é o que te libertará dos teus sofrimentos íntimos?

O sofrimento autoinfligido por autocomiseração ou vitimismo é inaceitável, mas o sofrimento aceito com resignação e coragem é ressignificado e reajusta-te nos caminhos porvindouros da tua própria evolução.

Conhecer-se a si mesmo não significa apenas adquirir a ciência do espírito ou a pedra filosofal. Significa também livrar-se de si. Livrar-se desse eu que constrange, limita e causa sofrimento; esse eu autocentrado, auto suficiente, auto enganador. O eu que se plenifica é o eu dadivoso, o eu fraterno, o eu-contigo, o eu em solidariedade.

Não busquemos, portanto, a ciência vaga e presunçosa que nos apartaria do martírio comum. Busquemos ainda e sempre a comunhão com o próximo porque o ser mais iluminado e pleno que já pisou sobre essa terra jamais se satisfez com a contemplação de si mesmo e de seus esplendores.

O íntimo do ser é iluminado, é grandioso, é divino. Mas cada um de nós está colocado em uma situação existencial que precisa ser atendida e não há que se buscar uma iluminação fantasiosa fora do cumprimento ordinário dos deveres que nos competem.

Faze o que estiver ao teu alcance para alcançares a ciência oculta da alma e para assenhorear-te dos potenciais enormes do espírito eterno que és, mas não te esqueças que a situação transitória da terra é emergencial e que te encontras colocado a postos para favorecer o amadurecimento global através do cumprimento da missão que te cabe em vida. E essa missão é rotineira: é o que te chega diariamente, é o que está ao teu alcance, é o que te compete.

A cada um conforme as próprias obras. E em assim dizendo, queremos firmar que a luz interior pressupõe uma moralidade redimida e que uma moralidade redimida pressupõe um coração que se abre e uma mão que se estende, e não apenas uma mente que se auto ilumina.

(Psicografia – médium: Catarina)

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