Eu gosto de estudar Filosofia e dar aulas de Filosofia. Mas sempre me identifiquei com um pensamento de fronteira…como se aquilo que eu buscasse não estivesse realmente lá, na Filosofia. Minha tese de doutorado foi publicada com o título “Bergson entre Filosofia e Espiritualidade”; recentemente publiquei uma coletânea de ensaios antigos que intitulei “Entre a Filosofia e o Silêncio”; minha prática profissional permaneceu por muito tempo em um limbo entre a docência e o jornalismo; e a minha própria escrita costuma deslizar entre a argumentação conceitual e a literatura. Parece que sempre estou “entre” uma coisa e outra, o que pode ser compreendido, talvez, como um estado de devir, uma dificuldade com a permanência ou com a estagnação.

Essa falta de estabilidade (em todos os sentidos) me perturba, mas também me impulsiona. Às vezes parece que não seguir esse fluxo de interesse genuíno, que me leva a novas áreas, novos conhecimentos, novas perspectivas equivale, de algum modo, a morrer.

Muitas vezes, nos últimos anos, e principalmente nos últimos meses, tive medo de morrer em vida, ou seja, de desistir de afirmar quem sou. Porque afirmar quem sou significa não se conformar com o que se é agora, mas lutar pelo que não se é ainda; significa afirmar o ser em potência que precisa se tornar ato, florescer, atingir a plenitude.

É preciso ouvir a si mesmo, observar a si mesmo. Eu costumava fazer isso através da escrita, mas esse importante exercício havia ficado pra trás. Segui com a escrita ora acadêmica, ora jornalística, mas agora entendo que não posso dispensar esse outro tipo de escrita, a escrita de si, que nenhuma inteligência artificial é capaz de imitar, porque é a escrita da alma.

Essa escrita me põe em contato com a vida interior, cujo desconhecimento torna a ação externa mecânica, opaca, sem sentido. Ela retorna agora que decidi não apenas estudar com rigor o pensamento de Carl G. Jung, como também me submeter a uma demorada terapia com analista junguiano.

Claro que não vou abandonar a Filosofia. Mas a psicologia analítica agora vem em meu socorro a fim de que eu não abandone a mim mesma.

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