A história do conceito de psyche (alma) no pensamento ocidental passa por transformações consideráveis, partindo de uma imagem espectral da morte para se tornar a essência mesma da identidade, racionalidade, intencionalidade e personalidade humana. Foi principalmente a Sócrates que coube a identificação da alma com o eu intelectual e moral.

A partir de Sócrates, “conhecer a si mesmo” passou a significar conhecer a própria alma, e o “cuidado da alma” (epimeleia) tornou-se a tarefa suprema do filósofo, visando torná-la o melhor possível através da sabedoria e da virtude. Platão, por sua vez, conferiu fundamentação metafísica a essa reforma socrática, explicando a alma como uma substância espiritual imortal que preexiste ao corpo e possui afinidade com as Ideias eternas.

Na tradição platônica, a alma é o princípio motor que move a si mesmo e ao corpo, sendo este último frequentemente descrito como uma “prisão” ou “túmulo”. Já Aristóteles ofereceu um contraponto ao definir a alma como a entelequia ou forma de um corpo natural orgânico, estabelecendo uma unidade substancial entre corpo e alma em vez do dualismo de Platão.

Com a ascensão do Cristianismo, o conceito grego de psyche foi absorvido e adaptado. Em “Corpo, alma e saúde: O conceito de homem de Homero a Platão”, Giovanni Reale explica que muitos acreditam erroneamente que o conceito de “alma” é estritamente ligado à mensagem cristã original, quando, na verdade, o cristianismo primitivo focava na “ressurreição da carne”. Foram os pensadores cristãos da Patrística (os Padres da Igreja) que receberam dos gregos a figura teórica da alma e a utilizaram como ferramenta para explicitar conceitos que eram considerados implícitos no texto bíblico.

Também Pierre Hadot, aborda, em “O que é Filosofia Antiga?” essa recepção, pelo cristianismo, do conceito grego. Ao se definir como uma “filosofia”, o cristianismo apropriou-se da noção grega de alma, integrando-a a um modo de vida centrado no Logos (Razão Divina). Esta recepção ocorreu principalmente através da assimilação de práticas gregas que visavam a transformação do eu, centradas porém, em uma nova paidéia, a paidéia cristã.

Pensadores cristãos como Clemente de Alexandria e Evágrio Pôntico adotaram a definição platônica de filosofia como um exercício para a morte, interpretando-a como a separação espiritual da alma em relação ao corpo e às suas paixões.

O cristianismo incorporou também a atitude estoica e neoplatônica de vigilância constante sobre a alma, utilizando textos bíblicos para justificar o controle racional sobre os pensamentos e a correção do caráter. Orígenes e outros Padres da Igreja estruturaram o avanço da alma em direção a Deus utilizando as divisões da filosofia grega: a ética (purificação), a física (desprendimento das coisas sensíveis) e a teologia (união com o divino).

Sob a influência da exegese filosófica, conceitos evangélicos como o “Reino dos Céus” foram reinterpretados como estágios de contemplação da alma e níveis de progresso espiritual, assim como a prática pitagórica e estoica de revisar os atos do dia foi assimilada pela espiritualidade monástica como um meio essencial para a cura da alma e o autoconhecimento.

Pierre Hadot esclarece que, embora o cristianismo tenha adotado esses exercícios e categorias da filosofia antiga, ele os situou em um conjunto mais amplo de práticas especificamente cristãs, como a humildade e a dependência da graça divina. De todo modo, importa notar que a vida monástica foi frequentemente descrita como a “filosofia cristã”, pois buscava a vida segundo o Espírito, um ideal que fundia as tradições filosóficas antigas com a fé cristã.

Essa fusão entre o pensamento grego e a fé cristã primitiva também foi abordado de modo interessante por Werner Jaeger, nas suas preleções encontradas em um livro intitulado “Cristianismo primitivo e Paideia grega”. Segundo o erudito helenista, a noção de paideia cristã aparece como uma evolução e, ao mesmo tempo, uma superação da paideia grega clássica.

Jaeger aponta que, já em escritos apócrifos como os Atos de Filipe, o cristianismo era descrito como a “paideia de Cristo”, surgindo como uma continuação lógica para aqueles que possuíam a cultura antiga. Clemente de Roma, por exemplo, utiliza o termo paideia tou kyriou (paideia do Senhor) para descrever o cristianismo como uma força protetora e educativa na vida do fiel, baseada nas Escrituras, enquanto Clemente de Alexandria distingue a paideia dos “bárbaros” (cristãos e judeus) daquela dos gregos, afirmando que a verdadeira paideia vem de Deus.

Orígenes expande essa visão, vendo a história da humanidade como o cumprimento gradual de uma paideia divina, na qual Cristo é o educador supremo que transforma a alma de seus discípulos.

A imitação de Cristo é o núcleo prático da paideia cristã, especialmente na teologia de Gregório de Níssa, para quem o processo educativo é uma morphosis (formação ou moldagem) da alma humana. A estrutura da ascensão da alma em direção a Deus, descrita por Gregório de Níssa, utiliza as categorias do platonismo (como a ideia de que a alma é um “vaso” a ser preenchido) para explicar a experiência mística e a união com o Logos.

Assim como Hadot e Reale, Jaeger também afirma que o conceito grego de alma foi absorvido por autores cristãos para fundamentar a capacidade humana de compreender o divino. Os três eruditos concordam que o cristianismo primitivo absorveu e adaptou a “psicologia” e a metafísica grega, especialmente a platônica, para descrever a natureza humana.

Os modos de vida antigos (como o estoicismo e o platonismo) foram assimilados pelo monaquismo cristão, que herdou as práticas de ascese, atenção a si mesmo e o exercício para a morte, mas agora voltados para o seguimento de Cristo e a dependência da graça divina. A dimensão existencial da filosofia foi, assim, renomeada e integrada à mística e à espiritualidade cristã.

Por outro lado, na Idade Média, segundo Pierre Hadot, o discurso filosófico foi reduzido a uma ferramenta técnica, a serviço da teologia, servindo apenas para elucidar, organizar e defender os dogmas da fé e, com o surgimento das universidades no século XIII, a filosofia tornou-se uma atividade puramente acadêmica e profissional.

O “ofício” do filósofo passou a ser o de comentar textos (especialmente de Aristóteles) e resolver problemas conceituais (a disputatio), focado na especulação teórica e não mais na formação do ser humano. As filosofias modernas e contemporâneas, por sua vez, acabaram herdando essa visão da Idade Média, tratando a Filosofia como uma ciência puramente teórica e abstrata.

Bibliografia

HADOT, Pierre. O que é Filosofia antiga? Edições Loyola, São Paulo, Brasil, 1999

JAEGER, Werner. Cristianismo primitivo Y paideia grega. Fonde de cultura economica, México

REALE, Giovanni. Corpo, alma e saúde: o conceito de homem de Homero a Platão;São Paulo :

Paulus, 2002

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