A história do existencialismo costuma ser narrada de trás para frente: parte-se de Sartre, passa-se por Heidegger e, apenas como prólogo remoto, menciona-se Kierkegaard. Essa inversão cronológica produz também uma inversão conceitual. O existencialismo aparece, então, como uma filosofia do absurdo, da liberdade sem fundamento e, por fim, do ateísmo.
O existencialismo, porém, nasce como uma crítica religiosa à modernidade filosófica, e não como sua negação secularizada. Reconstruir essa genealogia é indispensável para compreender tanto a centralidade de Kierkegaard quanto o desvio intelectual que conduziu ao chamado existencialismo ateu.
Kierkegaard surge no século XIX promovendo uma dupla ruptura: contra o hegelianismo dominante e contra a cristandade institucionalizada de seu tempo. Ao transformar a realidade em momento do conceito, o sistema hegeliano dissolve o indivíduo concreto na abstração do universal; Kierkegaard reage recolocando no centro o singular existente, aquele que vive, sofre, escolhe e se angustia.
As categorias fundamentais que alimentariam todo o existencialismo posterior, como angústia, desespero, liberdade, escolha, possibilidade, autenticidadeforam estabelecidas por Kierkegaard. Todas essas categorias são estruturadas diante de uma alternativa radical: ou Deus existe, ou a existência humana carece de sentido.
Kierkegaard não propõe uma fuga da razão, mas uma crítica à sua pretensão totalizante. O salto da fé não é irracionalismo, mas reconhecimento dos limites da mediação conceitual quando se trata da existência concreta. O existencialismo nasce, assim, como uma filosofia da interioridade, da decisão e da responsabilidade pessoal diante de Deus. Essa matriz cristã não é um detalhe acidental, mas estrutura o sentido original do existir como tarefa, risco e vocação.
O existencialismo cristão e personalista
Autores como Gabriel Marcel, na França e Luigi Pareyson, na Itália, preservam, cada um a seu modo, essa herança kierkegaardiana. Marcel, em particular, insiste na distinção entre problema e mistério, recusando a redução da existência a objeto manipulável. Sua filosofia da disponibilidade, da fidelidade e da esperança mantém aberta a dimensão da transcendência e recusa o fechamento imanentista da existência. Trata-se de um existencialismo que permanece personalista e, em sentido amplo, cristão, ainda que não confessional.
Luigi Pareyson, por sua vez, propõe uma ontologia da liberdade. Para ele, o ser não é um fundamento estático, mas a própria liberdade. A existência é definida pela coincidência entre a autorrelação (o eu consigo mesmo) e a heterorrelação (o eu com a transcendência). Pareyson introduz a “dialética da cruz”: o sofrimento e o mal não são apenas fatos naturais, mas portadores do segredo do ser. A vitória sobre o nada se dá na afirmação da cruz como o ápice da liberdade que escolhe o bem.
O homem é reconhecido como pecador, o mundo possui sentido e o mal terá um fim. Aqui, a liberdade não é absoluta autonomia, mas a resposta do indivíduo a um dom prévio, onde a maturidade da singularidade se prova no paradoxo de confiar no Invisível, superando a angústia através da reconciliação com o Absoluto.
Outra figura importante foi o teólogo Karl Barth. Em sua influente leitura da Carta aos Romanos, Barth estabelece uma “teologia da crise” que funciona como um programa de anti-hegelianismo radical. Para ele, existe uma distinção qualitativa infinita entre Deus e o homem; a fé não é uma conclusão lógica, mas uma confrontação com uma categoria de ordem absolutamente diferente do tempo humano.
O desvio para o ateísmo
O movimento intelectual que culminou no existencialismo ateu pode ser visto como uma apropriação e deturpação dos temas originais de Kierkegaard. Esse processo de desvio ocorreu principalmente pela fusão, feita por Martin Heidegger, da filosofia da existência com a fenomenologia de Husserl, que buscava descrever a estrutura da consciência sem recorrer necessariamente a fundamentos metafísicos ou divinos.
Com Heidegger, a estrutura existencial é mantida, mas o horizonte teológico é suspenso. Heidegger retoma de Kierkegaard categorias como angústia, finitude e decisão, mas as reinscreve em uma analítica do Dasein radicalmente imanente. O ser humano é um ser-lançado, sem finalidade prévia, cujo sentido não vem de um Absoluto transcendente, mas da própria temporalidade.
Se para Kierkegaard a angústia era a possibilidade da fé frente ao infinito, para Heidegger ela tornou-se a apreensão do nada e da finitude radical. A angústia já não abre para o salto da fé, mas para o reconhecimento do ser humano como ser-para-a-morte. A transcendência é agora interna à própria existência fática, não mais relação com Deus.
Com Sartre, esse deslocamento se torna explícito e programático. A famosa tese de que “a existência precede a essência” radicaliza o gesto heideggeriano: não há natureza humana, não há fundamento transcendente, não há Deus. O nada deixa de ser a outra face de Deus para tornar-se o horizonte último da condição humana. O homem não é nada antes de se projetar. A angústia, neste contexto, é a tontura da liberdade diante do abismo do nada; a descoberta de que somos pura possibilidade sem finalidade pré-determinada.
O homem está condenado à liberdade e deve criar seus próprios valores no vazio de sentido. Embora Sartre reconheça a influência de Kierkegaard, seu existencialismo representa uma inversão do núcleo original: aquilo que, em Kierkegaard, conduzia à fé, em Sartre conduz ao ateísmo militante.
Enquanto Kierkegaard postulava que “ou Deus existe ou a existência não tem sentido”, os ateus subvertem a premissa: “precisamente porque não há sentido prévio, sou livre para criá-lo”.
O existencialismo ateu não é o desdobramento necessário do pensamento kierkegaardiano, mas uma apropriação seletiva, um desvirtuamento. Conservam-se as categorias existenciais, mas elimina-se a alternativa fundamental que lhes dava tensão e profundidade. O resultado é uma filosofia da liberdade sem transcendência, da angústia sem redenção, da escolha sem horizonte último.
Embora as vertentes cristã e ateia do existencialismo compartilhem o foco no indivíduo e na angústia, elas divergem radicalmente no télos dessa liberdade: enquanto uma busca o fundamento na transcendência, a outra afirma a finitude radical, situando o homem como seu próprio legislador em um mundo desencantado.
A angústia é o fenômeno que simultaneamente une e separa as duas escolas. Para o cristão, o abismo da angústia é o “aguilhão salvador” que impele ao salto em direção a Deus. Para o ateu, a angústia é o reconhecimento de que o abismo está vazio e que o sentido deve ser forjado pela própria ação humana.
As excelentes teses propostas por Kierkegaard foram, como vimos, o elemento norteador do existencialismo posteriormente concebido. Negadores de Deus assentaram, portanto, suas bases em um angélico prosélito, desprovendo a teoria de seus reais alicerces.
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Referência bibliográfica: Ensaios sobre Existencialismo e Cristianismo [recurso eletrônico] / Marcio Gimenes de Paula — Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2021