A perigosa aliança entre extrema-esquerda e islamismo na França e no mundo tem sido alvo de críticas e análises. O advogado e ensaísta Gilles William Goldnadel escreveu no jornal Le Figaro que muito se fantasiou sobre os perigos de uma extrema-direita fascista, enquanto a aliança mortal entre a extrema-esquerda e o islamismo era ignorada. Segundo o escritor, “a consequência mais desastrosa desta cegueira foi abster-se de resistir a um fenômeno migratório massivo e invasivo, do qual os judeus franceses são as primeiras vítimas na carne”.

Goldnadel criticou o que chamou de “pusilanimidade”. Para ele, os males a serem denunciados são bem conhecidos e precisariam ser nomeados: “Eles se chamam antissemitismo islâmico e extrema-esquerda cúmplice”.

Já o filósofo francês Luc Ferry publicou, também no jornal Le Figaro, um artigo intitulado “Judeofobia, compreendendo a nova situação”. Ferry argumenta, no referido texto, que o atual ódio aos judeus não deve ser compreendido através da mesma lógica aplicada às velhas formas do antissemitismo nazista.

Na década de 1930, as antigas faces do antissemitismo foram reforçadas pelo antissemitismo islâmico da Irmandade Muçulmana, “cujos líderes, deslumbrados com Hitler, fizeram de tudo para apoiá-lo”. Hoje, na Europa, explica o filósofo, o antissemitismo vem mesclado a novas formas de ideologias. A ele se junta “uma nova forma de judeofobia, a do wokismo e do islamo-esquerdismo, aos olhos dos quais o muçulmano substituiu o proletário no papel dos oprimidos”.

Ferry alerta para a urgência de se reconhecer essa nova fase ou nova faceta do antigo ódio aos judeus, sob o risco de passarmos ao largo da real ameaça.

A nova judeofobia, explica, “baseia-se na ideia de que o sionismo é o mais recente avatar do colonialismo ocidental e racista apoiado pelo neoliberalismo americano, o principal apoio de Israel, de modo que o sionismo acumularia tudo o que a extrema esquerda odeia”.

Os que fazem do grupo terrorista Hamas um movimento de resistência e se recusam a qualificá-lo como terrorista expressam a ideologia do ódio ao “Ocidente colonizador”.

Por mais que “o ódio a Israel evidenciado pelas palavras de Jean-Luc Mélenchon ou Antonio Guterres [seja] desprezível”, explica Ferry, eles não preenchem nenhuma das caixas das antigas correntes antissemitas: não são nem fanáticos religiosos, nem teóricos da “raça judaica”.

O povo francês carece hoje de uma perspectiva política na qual a República não seja confundida com uma insana e autodestrutiva concessão ao multiculturalismo, que tem sido o mote acadêmico mal utilizado na boca de estudantes e intelectuais que optaram por um lado da História, aquele de quem foi colonizado.

A colonização, no seu aspecto brutal, é legitimamente condenável, mas o fato de determinados valores terem sido trazidos através dela não implica que esses valores sejam inadequados. Países como o Brasil, que estiveram sob a dominação europeia, podem sim se considerar herdeiros do patrimônio cultural europeu sem que isso implique uma submissão a quem quer que seja.

O legado do Ocidente

Não se trata hoje de uma luta entre colonizadores e colonizados, não se trata de uma luta entre as potências europeias e os frágeis indígenas. A retórica esquerdista da “decolonização” mal consegue escamotear sua pretensão de acabar com o legado cultural do Ocidente sob o pretexto de ser um legado de opressão e iniquidades.

O legado do Ocidente, porém, é muito maior do que seus erros e seus desvios. Trata-se de uma história civilizacional, que trouxe ao mundo os Direitos Humanos e o Estado de Direito, a liberdade e a igualdade.

Somos herdeiros dos europeus, tanto quanto o somos dos judeus e árabes. O patrimônio grego foi preservado por esses povos e retornou ao Ocidente no momento decisivo e oportuno, que possibilitou a modernidade.

A relação entre judeus e árabes não é problemática. Problemáticos são os discursos demagógicos de ambos os lados que, dentro do seu espectro político característico, tentam fazer com que povos e nações se odeiem e se aniquilem.

Diante do terrorismo não deveria haver concessões. No entanto, existe e se fortalece a retórica insidiosa que condena Israel pela resposta ao Hamas como se se tratasse aí de um ato covarde e cruel tal o perpetrado pelos terroristas em 7 de outubro contra os israelenses. Os que sustentam isso só o fazem porque colocam sua ideologia acima do amor ao próximo e fazem do cinismo uma arma política.

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