Serenidade é um estado mental em que a alma se encontra consigo, estabelecendo contato superior com os propósitos elevados da própria psique. Serenidade é estar em paz consigo, com o próximo, com o corpo, com os desafios que a vida impõe e até com as confusões do mundo, pois delas não podemos fugir. Não devemos fugir porque, afinal, que é do mundo se a serenidade dos poucos indivíduos sãos não interage com a emotividade conturbada da maioria? Serenidade então é o propósito inicial dessa jornada, na qual teremos oportunidade de iniciar um estudo qualitativo de muitos estados mentais, de muitas conturbações que prejudicam a todos nós no dia a dia, fazendo-nos vítima de nossas próprias imperfeições e vícios.
Que dizer do vício da emoção negativa, do pensamento etéreo que vaga nas paragens tétricas, perdendo-se e ludibriando-se com sentimentos perturbadores e deletérios? Que dizer dos pensamentos imorais que nos jogam na lama, no despenhadeiro da luxúria? Que dizer dos pensamentos confusos que nos invadem inopinadamente desorganizando a nossa casa mental? Como evitar isso? Como estabelecer metas mais firmes e sólidas para o autoconhecimento em meio a todas essas dificuldades? Primeiro, é necessário habituar-se ao exercício da auto-observação. É necessário estimular a consciência e refrear o inconsciente, sem o quê o automatismo nos guiará sem nos darmos conta.
Comece olhando para si. Veja o que te move, o que te põe em ação. Se isso te agrada conscientemente, permanece firme nesse propósito, mas se percebes que aquilo que te impulsiona é negativo, freia a tua ação. Para e reflexiona: o que queres atingir com isso? Onde te levará o ódio se fizeste dele teu motor? Onde te levará a inveja se te escondeste nela para desejar? Onde te levará o orgulho ferido se é ele que te impulsiona os passos?
Condicionar a ação não significa automatismo. Automatismo é seguires o impulso. Conduzir-se sobriamente a partir de uma reflexão lúcida que redireciona para o bem não pode ser considerado um desvio da proposta de autenticidade porque a autenticidade não está nem no inconsciente confuso nem na reflexão, mas na etapa superior a essa que agora nos serve de base e de escada para um nível mais profundo da psique.
Se o que queres alcançar é uma psique saudável, uma mente aberta, um coração amplo e benevolente eu te digo que sim, que deves iniciar por um movimento de recondicionamento dos teus atos, de reorganização de tuas ideias e de reorientação de teus passos.
Principia, pois, com um gesto simples: acata tudo o que te acontecer. Estabeleças essa como a primeira meta do teu aperfeiçoamento. Sê consciente e acata tudo o que te ocorrer. Isso não significa que serás absolutamente passiva, mas significa que sustentarás a vida com responsabilidade, sem ousar se movimentar contra ela, pois a vida é mais sábia que o teu ego que quer controlá-la e muitos acontecimentos que cercam a tua existência estão previamente desenhados sem que contra isso possas fazer nada a não ser compreendê-los e aceitá-los.
Porventura isso anula a liberdade, a possibilidade, a vontade? De forma alguma. Isso cria o teu espaço de ação e o teu espaço de ação não ultrapassa os acontecimentos que cercam a tua existência e que são necessários para ti, para o teu aprimoramento pessoal. Conscientiza-se, pois, de que há uma área de atuação restrita na qual a tua ação se manifesta e conscientiza-se ainda de que a serenidade de que falávamos começa justamente com a aceitação dessa verdade simples: tu não podes tudo; o teu querer não é ilimitado; a tua vontade não é todo-poderosa. Limitando a tua vontade ao âmbito próprio e propício à tua atuação, conseguirás determinar metas realistas e possíveis de realização sem tormentos desnecessários que te aflijam ou angustiem.
Onde estás agora? Que te cabe fazer? Qual é o teu dever nesse momento? O que esperam de ti? Tens um filho? Tens um trabalho? Um lar? Um projeto? Realiza-os serena, calma e seriamente, com a seriedade alegre de quem sabe que o dever a cumprir é seu e que, sendo seu, o tempo está a seu favor. Não precisa de pressa, não precisa de nervosismo, não precisa de precipitação. A precipitação põe a perder aquilo que é próprio do trabalho, que é proporcionar autoconfiança e bem-estar em quem o realiza.
Toma o lápis, escreve um pequeno texto; toma a tua tarefa diária, realiza-a com bom senso, alegria e moderação. Permita-se pequenos lazeres saudáveis e reparadores e, assim, vai a caminhar, dia após dia, sem imaginar que a tua vontade possa alterar o rumo das coisas maiores do que aquelas que se te apresentam no dia a dia e te requisitam o empenho.
Não projetes a mente longe demais para que ela não se perca em devaneios. Não se deixe precipitar ou aprisionar pela insegurança e pelo medo. O que podes realizar, realiza. O que não podes, larga, entrega, deixa, esquece. Serenidade é o primeiro passo. Serenidade, consciência e compreensão do seu limitado e intransferível papel no mundo.
(Psicografia – médium: Catarina)